30 de abril de 2025

Seu trabalho é espiritual?

 

No livro eu-negócio, escrito pelo mentor gaúcho Edgar Powarzuk, com o qual tenho a honra de colaborar, exploramos como o trabalho se tornou uma extensão do Eu e um caminho fundamental para dar sentido à vida e buscar realização pessoal. O trabalho não é apenas uma fonte de sustento, mas o meio pelo qual queremos ser vistos e reconhecidos no mundo, aproximando-nos de nós mesmos.

Se o trabalho se torna uma extensão do Eu, a espiritualidade é indivisível desse contexto, uma vez que espiritualidade é a forma como entendemos nossa conexão humana com o divino. Falo do divino que extrapola qualquer visão religiosa, aquele reconhecimento da grandiosidade do que nos cerca, aquilo que nos possibilita a vida. O filósofo Mario Sérgio Cortella define espiritualidade como “a recusa de que a vida se esgote em sua materialidade”. Uma visão de transcendência que permite agregar sentido à nossa existência, algo referido por todas as religiões, mas que as extrapola amplamente.

O ser humano sempre buscou transcender a vida ordinária, muito antes da concepção moderna do trabalho como centro do sistema que rege nossa sociedade. As questões existenciais, antes limitadas a religiosos e filósofos, se popularizaram nos últimos séculos, ampliando nossa busca por sentido maior em nossas ações cotidianas.

Em um sistema onde o trabalho ocupa grande parte das horas de vigília, a atuação profissional se torna uma oportunidade essencial de vivermos alinhados aos nossos valores pessoais e darmos sentido à vida. A narrativa moderna, focada em performance, acabou por desviar as questões centrais que inicialmente levaram o trabalho a ocupar esse espaço. Muito distante das práticas holísticas superficiais usadas para estimular produtividade, a verdadeira espiritualidade no trabalho agrega aspectos fundamentais como senso de significado (trabalhar alinhado aos valores pessoais), autenticidade (coerência entre identidade pessoal e profissional) e pertencimento, cultivado por relações interpessoais baseadas em empatia, colaboração e respeito.

Muitas empresas têm nascido com um olhar acentuado para essa questão. Outras, de maior porte, já reconheceram isso, adotando práticas inclusivas que respeitam a espiritualidade individual, fortalecendo a cultura organizacional e o bem-estar emocional dos colaboradores. Algumas oferecem ainda profissionais para aconselhamento espiritual e suporte emocional, fortalecendo o sentimento de comunidade e suporte entre colaboradores.

Pesquisas recentes reforçam esses benefícios. Um estudo publicado na revista Psicologia: Ciência e Profissão demonstrou que a espiritualidade no trabalho tem forte influência sobre o bem-estar laboral, contribuindo para maior satisfação, comprometimento afetivo e experiências positivas no ambiente profissional. Outro estudo publicado na Research, Society and Development mostrou que colaboradores que vivenciam espiritualidade no trabalho têm maior criatividade, confiança interpessoal e desempenho organizacional.

Nesse contexto, o trabalho se torna um meio para buscar as meta-necessidades descritas por Abraham Maslow em seus estudos sobre autorrealização. Sua teoria, popularmente representada pela Pirâmide das Necessidades, indica níveis que vão das necessidades fisiológicas até a autorrealização, enfatizando que é nesse nível mais alto que o trabalho pode se tornar uma expressão máxima do Eu.

O desafio dessa integração está na indecência que frequentemente permeia ambientes e relações profissionais modernas. Cortella lembra que decência vem do latim “dec”, significando “ornar”, harmonizar. Para ele, decência é o que dá equilíbrio e harmonia à vida. Infelizmente, muitas relações profissionais modernas se tornaram indecentes, desconectadas da harmonia com o ser integral e suas reais necessidades, que ultrapassam o âmbito material.

É preciso, como empresas e profissionais, resgatar a decência necessária para integrar as diferentes áreas da vida, tornando o trabalho um estímulo para uma existência significativa e próspera.

Ao escolhermos a decência como guia, permitimos que nosso trabalho transcenda o aspecto produtivo e se torne uma prática espiritual que honra nossa verdadeira essência. Essa decisão individual e coletiva pode influenciar profundamente culturas organizacionais, criando ambientes onde realização pessoal e sucesso profissional coexistem de maneira autêntica.

Retomo, então, à pergunta inicial: seu trabalho é espiritual? Ou melhor, você tem permitido que ele seja? Podemos e devemos reintegrar aquilo que nunca deveria ter sido separado. Afinal, quando trabalhamos com sentido, transcendemos. E ao transcender, encontramos a realização.

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