30 de abril de 2025

Eu achava que o trabalho me faria feliz

 

Existe uma confusão comum e amplamente difundida nos discursos motivacionais sobre trabalho: a ideia de que ele pode ou deve trazer felicidade.

A busca pela felicidade é um gatilho fácil de usar, porque parece estar no centro da experiência humana. Todos queremos ser felizes. Mas é preciso reconhecer que esse objetivo está muito além de metas batidas, conquistas materiais, acúmulo de grana ou do tal “mindset milionário” (seja lá o que isso realmente quer dizer).

E o trabalho entra nessa equação com força, porque ele é parte central da nossa identidade. Mais do que uma função ou um cargo, ele carrega uma questão existencial. É o meio pelo qual buscamos pertencimento, reconhecimento, valor.

Justamente por isso, não é incomum que ele acabe “tomando conta” e consumindo todo o nosso tempo e energia. Foi assim comigo. Por anos, ele ocupou um espaço desproporcional na minha vida. E isso me impediu de experienciar outras dimensões que, mesmo não sendo prazerosas, teriam me feito mais inteiro.

Trago essas palavras porque gostaria que alguém tivesse me dito isso antes. E não se trata apenas da minha visão. Um termo da tradição védica, vairāgya, expressa essa mesma ideia. Traduzido como desapego ou ausência de desejo, especialmente em relação aos prazeres sensoriais. Vairāgya não significa rejeitar o mundo ou reprimir desejos, mas sim amadurecer ao ponto de entender que nem todo prazer nos leva à verdadeira felicidade. Muitos confortos, na verdade, nos mantêm presos ao ciclo do sofrimento.

A verdade é que o valor que entregamos ao mundo tem peso. E os frutos que colhemos disso sustentam essa troca. Mas preciso te dizer: o quanto você ganha por isso não te fará proporcionalmente feliz. Muita gente acredita nisso movida pela promessa. E são justamente essas pessoas que, quando alcançam o que almejavam, se deparam com o vazio. Já atendi muitas delas. E eu fui uma delas.

Então a solução é largar tudo e viver da sua arte na beira da praia?

Não exatamente. Esse pensamento também pode ser apenas outra camada do mesmo apego. Perceber que você não precisa de algo não significa que precisa rejeitá-lo. Tirar a neblina da falsa promessa de felicidade pode, sim, abrir espaço para um novo olhar.

Talvez o que esteja faltando não seja uma nova carreira. Mas uma nova relação com ela. Um espaço para reflexão, leveza, menos cobrança interna.

E quem sabe, nesse movimento, você resgate aquela ideia antiga que ficou guardada. Talvez o medo de fracassar financeiramente esteja fazendo você fracassar silenciosamente todos os dias. E depois de muitos anos, isso pode virar apenas mais uma desculpa para não ter vivido o que precisava ser vivido.

Eu achava que o trabalho me faria feliz.

Hoje, ele faz parte disso.

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